sexta-feira, novembro 20, 2009

Discorro...

Perdi a noção das horas, deixei-me vencer pela necessidade de pôr a descoberto o que a alma encerra. Às vezes permito que a razão fique de parte, relegada para um plano secundário, e dou asas a que o sentimento que me invade discorra sobre o teclado. Será, porventura, um modo de catarse, pelo menos assim o desejo. Kant considerava o desejo nefasto, assim como o sentimento de compaixão. Confesso que dou comigo, muitas vezes, a concordar com ele no que à compaixão diz respeito, os motivos dessa minha concordância são ambivalentes e por isso não me detenho a tecer mais considerandos sobre o assunto. A verdade porém é que se hoje sorrio despregadamente, me sinto viva e com coragem suficiente para vencer obstáculos, há relativamente pouco tempo isso não sucedia. Foi uma altura em que entre o abismo e eu havia uma linha ténue. Um época em que a loucura insana e a realidade se passaram a confundir, onde acordar era penoso e caminhar doloroso. O mundo, as ruas cheias de gente faziam-me confusão e o medo de dizer, pensar ou ousar me acabrunhavam.
Passado esse período e tendo encetado por um novo caminho a 1 de Setembro deste ano, o medo da liberdade ainda espreita, mas o sorriso voltou e pude voltar a ser somente eu. Por quanto tempo poderei almejar a ser somente eu não me interessa. O simples facto de ter renascido por este período já valeu a pena. Passei a adorar as viagens entre o Ribatejo e o Norte. Voltei a ter saudade, a ter vontade de acordar... hoje desejo continuar a fazer estas viagens. E porquê? Porque aqui, neste recanto ribatejano, foi-me permitido voltar a acreditar em mim, foi-me permitido viver. Até o cheiro nauseabundo dos curtumes é suportável. E no Norte tenho o meu porto seguro, que brindou de forma eufórica o reaparecimento do meu sorriso.