Terça-feira, Outubro 20, 2009

Vielas suas...


Disseram que nascera no local errado, talvez até à hora errada, que perante este cenário apenas o choro lhe era permitido. Caminhava perdido em si, perguntando-se o que poderia ter feito, questionando a sua sina. Fechava os olhos e perguntava-se porque não tinha melhor condição.
Partido o coração, afastava-se de si mesmo, caindo na crença de que vida mais mísera do que a sua não havia. Desconfiado, de coração duro, tomou as vielas da rua como suas, nunca disse adeus. Era ainda uma criança que desejava, a todo o custo, recomeçar, renascer, ter sonhos. Achava que era o fim da linha, que nenhum novo começo surgiria e assim foi calcorreando as ruas da cidade e as suas vielas até as saber de cor.
Sonha, sonha e verás que os sonhos são o melhor que podes ter, dizia de si para si. Levavas as mãos à boca e ansiava por uma vida diferente… sentado no meio da multidão que passa no seu frenesim diário, só queria que alguém o visse, o olhasse, desse conta que existia. Quando um olhar desconhecido se cruzava com o seu, estremecia, desconhecendo se era esperança, se temor.
Assim, perdido nas vielas estreitas, a desconfiança e os sentidos apuram-se. Olhava as estrelas, sempre à espera que lhe tocassem o coração, memorizava os passos, os rostos dos que por si passavam, até sabia os seus ritmos diários, mas ninguém o via.
Nobre coração, o de “vagabundo” e ninguém o sabia. Braços abertos à cidade, olhos fixos no movimento do todo, sabia de cor as pessoas, conhecia-as como talvez nunca elas próprias se venham a saber um dia e ainda assim, invisível.
Um sorriso, uma palavra apenas, fazem o coração solitário deste homem encher-se de alegria. Mas caminhamos demasiado envolvidos com as nossas preocupações, com o nosso ritmo de vida alucinante, encerrados no nosso egoísmo que nos esquecemos de olhar à nossa volta, de ver com os olhos do coração.

Terça-feira, Outubro 13, 2009


Canta com a expressão de quem ousa pensar por si. Ouve o sonho e sabe que só a alguns é oferecido ler o mais íntimo de si. Que adianta saber as marés a quem só vive dos seus engenhosos oficios?

E assim errante, já cheia de andar calada, deixa poisar o olhar sobre a imensidão que desperta da sua janela e por dentro sente o peito que vibra, sacudindo o medo... Lê poesia, faz poesia, deixa cair a máscara de dureza e retorna a si. Permite-se entrar no barco, ancorado no mar que só ela vê... âncora fora, parte olhando, absorvendo a vida que se estende. Escuta a voz que lhe diz: "aproveita-a, deixa que ela te toque." Porque Nuria não quer pactos e alianças, elas são bom remédio para quem não quer ver além do seu pequeno mundo. Nuria quer ir além de si, sonhar, poder projectar-se...

Olhando o azul do céu que se estende, depressa se apercebe que começa a anoitecer. Algo trémula, lança os olhos sobre a água e verifica que hoje tem um brilho especial. O brilho de quem renasce. Enquanto a mente se admira com a beleza, devolve-lhe a memória os rostos das gentes que ficam indelevelmente ligadas à história de vida de cada um. Correm à sua frente imagens de inequívoca raridade e solta um sorriso aberto, porque toma consciência que também ela tem uma história de vida por fazer, que sempre que o vento e a chuva lhe aparecerem tratará de lhes fazer frente. Porque Nuria escreve a cada dia que passa o seu livro, a sua história de vida, imprimindo-o nas rugas que começam a aparecer, no corpo que começa a sofrer alterações, na forma desprendida com que dá o seu melhor a cada tarefa que realiza. Nuria atravessa o mar, lança o olhar mais uma vez sobre a imensidão de beleza e sussurra aliviada.

Domingo, Outubro 11, 2009

Na minha (des)nudez

Despojo-me de vestes e exponho-me como outrora ousei fazê-lo e porque o faço, perguntam-me os meus elos (amigos) de sempre. Porque voltei, renasci... ainda que possa vir a retornar àquela concha bem apertadinha, bem fechada que bem conheceis, não deixarei de contar aos quatro ventos, que pude erguer-me, voltar a ser eu durante este período de tempo. Não cedi, não dobrei, não deixei que os meus princípios, os meus valores, aquilo em que acredito, fossem vencidos. Permiti-me a "humilhação", que me indicassem caminhos seus como meus, mas não olvidei por um segundo de que o valor das coisas está na sua essência e não na aparência. Choro a incapacitante algema que me devorou por tempo suficiente, porque não me permitiu dizer basta, porque me prendeu numa redoma de pedra, de tal forma que me obrigou a afastar de mim, dos meus familiares, dos meus amigos (irmãos) para poder retemperar forças. Não quis medicação, recusei-a. Chorei muitas vezes, barafustei, estive perto da loucura, perto de me perder. Cheguei a quedar-me na cama, a abeirar-me de pôr termino a mim mesma, de desistir...perdi-me em estradas que tão bem conhecia, estive em locais que sabia de cor, mas das quais não pude sair, porque a mente se opunha a reconhecer os trajectos... mas continuei, diariamente, a ir para a labuta. As baixas não fazem parte do meu vocabulário. Pedi ajuda, é verdade, mas a melhor ajuda que recebi foi a dos meus eternos seis guerreiros, a quem devo muito, que amo de coração. Os meus maiores amores, os meus anjos da guarda de uma vida, nunca me abandonam à maré. Passamos tanto e tão pouco simultaneamente... que nunca, jamais, será demais honrá-los. Hoje estou feliz, nas palavras deles "depois de 2 anos encerrada, renasci", mas convém dizê-lo renasci porque vos tive em sorte, porque sois únicos, porque me sabeis de cor. Se inumerasse os porque seriam intermináveis, tal é a minha gratidão. Porque vos amo, o meu sincero obrigada! Meus amigos, meus irmãos, sem vós a vida não tem arco-iris algum. A vós: Hugo; Sérgio Monteiro; Sérgio Fonseca; Vera; Olguinha; Quim (meu anjo); o meu amor eterno e desprendido! Um obrigada não é ainda assim suficiente para vos dizer o quanto significais para mim. Amar-vos é um gesto brando tendo em conta tudo quanto temos atravessado juntos. Amo-vos!

Sábado, Outubro 03, 2009

Hoje deixo-vos com uma sugestão de leitura: "A Sombra do Vento". Uma obra magnífica, um livro dentro de outro, onde as personagens se misturam num enredo brilhante. Um escritor que versa sobre outro, maravilhosamente, que ousa ingressar no mais íntimo das personagens que nos traz a lume. Um livro que demonstra a amizade entre um sem abrigo, que outrora teve família. A solidariedade, a amizade pura, mostrada no gesto e coração de oiro de Daniel, que vê em Fermín Torres algo mais do que a simples aparência "moribunda".

Julian Carax é delicioso, um misterioso escritor que se vai desvelando ao longo da nossa imaginação. Barcelona aaprece-nos sobranceira em tempos idos, reconhecemos nela a devastação do pós-guerra, a ira, a sede cega de vingança, a corrupção trazida pelas mãos de Fumero. Podemos vivenciar os momentos chave de cada personagem como se fossemos os próprios, sentir o mesmo que eles e perdermo-nos pelo "Cemitério dos Livros Esquecidos".

Para abrir o apetite, uma citação, entre outras, que me deixou a pensar:

"Nada alimenta o esquecimento como uma guerra. Todos nos calamos e as pessoas esforçam-se por nos convencer de que aquilo que vimos, aquilo que fazemos, o que apreendemos de nós próprios e dos outros, é uma ilusão, um pesadelo passageiro. As guerras não têm memória e ninguém se atreve a compreendê-las até não haver vozes para contar o que aconteceu, até chegar o momento em que já ninguém as reconhece e regressam, com outra cara e outro nome, para devorar o que deixaram para trás."

A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafon é, de facto, uma história inesquecível.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

De regresso

Depois de um longo período de hibernação, eis que me convidei ao regresso. Foram meses de distanciamento, necessários, onde muitas novidades foram surgindo, onde as transformações foram uma constante.
Foi um tempo árduo em alguns aspectos, mas que serviram para que pudesse retemperar forças, equacionar soluções, cogitar hipóteses, prever alguns acontecimentos e deixar-me, simultaneamente, conduzir pelo instinto. Mais uma vez fora do meu conforto familiar, do meu ninho. Mas como qualquer pássaro necessitei voar por mim, pelos sonhos partilhados. O voo este ano levou-me a uma nova paragem: o Ribatejo.
Serão estas planícies que me servirão de fonte de inspiração, doravante, enquanto pouso o olhar sobre ela e vejo para além dela.
Até amanhã...

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

Dita-me a consciência que me afaste da escrita, deste blogue, não porque não continue amar a palavra ou porque me tenha abandonado a sofreguidão de deixar a alma discorrer sobre o teclado. São motivos pessoais e profissionais que me fazem abandoná-lo por tempo indeterminado. Neste momento e ainda que procure manter viva a memória do que sou, não consegui ainda dar os passos necessários para um reencontro, para além de outros factores. Diria que as forças se esgotam sem que nos demos conta, definhamos numa dor, numa tristeza que nos amarra ao silêncio de nós mesmos muitas vezes e por muito que procuremos saídas, respostas, vamos embatendo sempre num muro que parece intransponível. Quedei-me na sorte de me abandonar à mercê de um sentir que vai deixando escapulir as poucas forças que a sustentam. Procurei, até hoje, socorrer-me de mim mesma apenas, para conseguir sair das guerras e vencer os obstáculos. Não busquei ajuda de nehuma especialidade, apesar de verificar que desde há algum tempo a esta parte, me sentia profundamente triste, sem vontade de dirigir palavras às pessoas, cansada, frustrada, esgotada, mas acima de tudo fria, sem projectos, sonhos ou vontade de ir além. De há uma semana para cá verifiquei que perdi peso, sinto repulsa por elogios ou demonstrações de carinho, que me custa dar um beijo ou um abraço. Tenho sentido uma fraqueza pouco habitual, tendências para desmaios e tem-me sido dificil levantar. As alterações de humor vão do silêncio para a explosão quando me chamam. No trabalho não quero ouvir as vozes e em casa fecho-me em mim. Hoje acordei com a sensação de vazio completo, quis lembrar-me do que tinha de fazer e não consegui, sai com uma sensação de levar o mundo nos ombros, entrei e sai triste de casa. Fiz uma viagem de noite e a cabeça parecia estar oca, vazia. Creio que tenho de encetar por outro caminho e procurar em definitivo a ajuda de um profissional. Às vezes pergunto-me o que me terá levado até aqui. Não sei, mas estes últimos anos têm sido marcantes: a perda do meu padrinho, meses depois a perda do meu avô, a crise de uma relação, a perda de um dos meus melhores amigos, o "assédio" de gente com poder, o diagnóstico de uma doença rara, a doença de um amigo, o sofrimento de uma segunda mãe, a inadaptação às mentalidades, a solidão, o não poder ser eu...talvez tenha deixado que tudo se juntasse e talvez isso me tenha feito perder... A verdade é que não sei o porquê, sei que me corrói a tristeza e me abandono na imensidão do não saber quem sou...
Até lá...

Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

O dia D...

O dia ergueu-se com uma suavidade plena de sentido para Manolo. O sr. Pereira trouxe, finalmente, a boa nova. Manolo iria trabalhar com ele, iria ser moço para todo o serviço que fosse necessário fazer no pequeno comércio. Vestiu-se à pressa, as calças rotas, os tamancos enfiados, mãos nos bolsos para esconder o nervosismo. Subida a rua, chegado à loja do Pereira, as pernas tremiam como varas verdes, esperou as ordens, cumpriu-as. No final de um dia de muitas lides, não se sentia cansado, mas com vontade de fazer mais. Depois de expor a mercadoria, atender o melhor que sabia os clientes, guardar as coisas que estavam expostas cá fora, ter limpado o chão, varrido o passeio em frente à mercearia, entre outras coisas mais, impelia-o a vontade de singrar, por ora aqui.
O Sr. Pereira não precisava de um empregado, mas sabia o que custava a vida, tinha já amealhado algum e desejava ajudar o máximo de pessoas que podia. Era um homem raro, que na surdina apregoava contra o governo, que desejava a liberdade, que não temia por si mas pelos seus. Não sabia porquê e confessou-o anos mais tarde, mas Manolo inspirava-lhe confiança, parecia-se com ele e disse-o, já velho e cansado demais para continuar por cá, que apostava nele como se fosse seu filho.
Manolo ficou a trabalhar com o Sr. Pereira durante alguns anos, criando uma verdadeira amizade. De tal forma que diz, ainda hoje, Manolo que "Pereira foi como uma árvore, que me prendou à vida e me impeliu a ramificar".

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

esperança...

Manhã cedo, raiava ainda mal o sol, Manolo estava já à porta da pequena pensão. Esperava por notícias do senhor Pereira, ansiava pela sua chegada, olhava a esquina da rua, estendendo o mais possível o olhar. O coração estava imparável, de tal forma que o simples acto de respirar se tornava custoso. O tempo foi passando, a amnhã estava já a meio, quando se deu conta da posição do sol. Decidiu esperar até ao meio dia. Se o Sr. Pereira não aparecesse até àquela hora, tinha decidido por-se, mais uma vez ao caminho.
Com os tamancos calçados, percorreu outras ruas do Porto, olhou a estrutura das casa, fixou-se nos rostos que via, desenhou percursos, bateu a várias e portas. No fim do dia, cansado, desgastado, com fome e sem nada para comer, subiu para o seu quarto. Abriu a mala de cartão e olhou-a com atenção. O dinheiro começava a escassear, já só tinha mais algumas moedas para fazer frente a mais dois dias, se tanto. acomodou-se o melhor que pôde na cama, fixou o olhar no nada e deixou-se embalar pelos seus pensamentos.
A esperança, essa, guarda-a para amanhã...

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

Assim...



Hoje, Manolo descansa ainda da sua caminhada, retoma-la-á logo que me recomponha desta maldita gripe que já me obrigou a uma ida às urgências em plena madrugada. Pensava eu, na semana passada, que já estava bem, porque até não não tinha dores e eis que veio em força, novamente, esta semana. Pareço um zombie com estas olheiras enormes, pois como não as haveria de ter se passo a noite a espirrar e a tossir? Mas, Manolo refaz-se da sua canseira também porque tenho de me despedir, infelizmente, de mais uma pessoa que fez parte da minha infância, adolescência e vida adulta. Dona Alice parte cedo demais, depois de uma vida, nos últimos anos com muitas perdas familiares. Ontem, o telefone de casa tocou a uma hora pouco habitual e o coração parecia adivinhar o que havia sucedido. Depois da notícia pesarosa, marquei o número da Joca e lá lhe disse: "não sou boa nestas horas, por isso resta-me deixar-te um beijo de amizade sentida." Adeus D. Alice, que a paz a acompanhe! Jamais esquecerei o seu sorriso e os braços abertos para me receber...

Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

Seis coisas sobre mim...

Costumo dizer que por muito que busque falar de mim nunca o faço de forma objectiva, no entanto faço-o sempre de forma realista e emprego o melhor de mim para que me conheçam. Não obstante, aquilo que somos no mais intímo de nós mesmos fica sempre aquém de qualquer coisa que consigamos transpor para os outros, porque é essência. Assim e porque me foi lançado um desafio, falar de mim, aqui vai. Espero não desiludir a Clara B do enigmaeoespelho.blogspot.com.



1. Adoro o campo, o cheiro a terra molhada e as rugas da minha avó. Esta tríade é-me essencial, cada uma pelo seu motivo. O campo faz parte da minha infância, onde cresci ao som da liberdade e das brincadeiras próprias da vida numa pequena aldeia, hoje desertificada. O cheiro a terra molhada porque me me faz lembrar a sonoridade prória da terra mãe. As rugas da minha avó porque nelas está também inscrita a minha história.



2. Sou pessoa de poucos amigos e defendo sempre que não os selecciono, mas creio que são eles que me escolhem, na medida em que me conferem a confiança necessária para ir além de mim mesma e de me poder mostrar como sou, sem ser, para isso necessário, vestir máscaras. Considero aqueles que são meus amigos parte integrante de mim mesma.



3. A ética e a moral acompanham-me vida fora e talvez por isso tenha alguns dissabores, mas contínuo a preferir reger-se por princípios valorativos fortes do que não os ter.



4. Adoro ler. Adoro literatura que faça pensar, que eleve. Sou apaixonada por poesia e filosofia. E se no que busco encontrar resposta não a encontro parto para outro ponto para ver se ele mo dá. Adoro Irvin Yalom, Milan Kundera, Saramago, Mário Sá Carneiro, etc.



5. Prefiro que as pessoas não saibam o meu nome, a que queiram viver a minha vida por mim. Odeio a intriga e pessoas mal formadas.



6. Sonho que o ensino em Portugal mude. Que o facilitismo exacerbado desapareça e que possamos ter gente capaz de nos governar futuramente.
Agora Passo o desafio a:
Para responder ao desafio os passos são estes:
Linkar a pessoa que me indicou.

Escrever as regras do meme no meu blog.

Escrever seis coisas aleatórias sobre mim.

Indicar outras seis pessoas e colocar os links no final do post.

Informar as pessoas que as indiquei deixando-lhes um comentário..

Oa tamancos de Manolo...


Desperta do sonho, queda-se o olhar sobre o rio, divaga a mente por inúmeros locais desconhecidos para si. Sabe onde está, o corpo prende-o ao local, mas a mente solta-se para se encontrar num local que desconhece. Manolo, começa a contactar, pela primeira vez, com uma infinidade de novas sensações, com sentimentos e emoções até então fechadas para si. Depois desta paragem, com os pés descalços faz-se ao caminho, novamente. Bate à porta de todos os pequenos comércios por que passa, tem os olhos lassos, os ombros caidos como se carregasse o peso do mundo. Já bateu a muitos locais, falou com muita gente, disse precisar de trabalhar, mas as recusas foram constantes. Já no final da rua do bairro, Manolo bate a outra porta, a última, ainda aberta. Do lado de lá do balcão em madeira gasta, surgiu um senhor alto, forte. O corpo franzino estremeceu ao ver tão proeminente figura. A medo disse: "senhor venho aqui perguntar-lhe se precisa de algum empregado. Faço tudo."

- De onde vens tu rapaz? - perguntou o dono da pequena mercearia

- De longe senhor, de uma terra que o senhor não conhece. Venho de lá, dos lados de Trás-os-Montes.

- E que te levou a vir até aqui?

- A busca de melhor sorte senhor. Preciso de ajudar os meus, e lá de onde eu venho já não há lugar para mim. Se continuar lá vou fazer o mesmo caminho que os meus pais e não estarei a ajudá-los. Só posso ajudá-los se conseguir madar-lhe mais algum...

- Como te chamas?

- Manolo.

- Manolo, o meu nome é Pereira. Diz-me onde estás a morar e logo verei se tenho alguma coisa para ti.

- Moro ali à frente senhor, na pensão ao fundo da rua.

- Vai descansar rapaz, deves ter os pés em ferida. Espera aqui um pouco que já volto.

O senhor Pereira subiu as escadas que davam acesso à casa, que ficava por cima da loja, e desceu com uns tamancos de madeira.

Manolo ficou sem palavras, os olhos toldaram-se de lágrimas, só foi capaz de dizer: "Obrigado senhor, muito obrigado. Mas não tenho dinheiro para lhos pagar."

- Não te preocupes meu rapaz, vai-te lá embora que se eu tiver novidades para ti lá te chamo.

Manolo seguiu para a pensão com os tamancos calçados, invadia-o um sentimento de gratidão enorme pelo gesto daquele desconhecido. Não sabia ainda que o senhor Pereira também já tinha tido 11 anos, já tinha andado descalço e conhecia como ninguém a necessidade. Chegado à pensão, caiu na cama e fixou o olhar no tecto, desenhou mentalmente um cenário e deixou-se enlevar nele. Olhou as mãos mais uma vez e adormeceu na ânsia de acordar com o sr. Pereira a bater-lhe à porta de manhã. Manolo dorme desperto...

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Manolo abraça o horizonte...




Ainda o dia não se erguera já Manolo estava desperto, seriam seis da manhã pelas suas contas. Bem poderia ter-se socorrido do relógio, mas não o tinha, assim teve de olhar o céu da janela e adivinhar que horas seriam. Olhava à volta, da janela do seu quartinho via o rio Douro, inspirou o ar da matina e deslocou-se para junto da sua mala de cartão. Abriu a mala, pegou no pedaço de pão de milho que a mãe lhe tinha colocado na mala e acariciou-o, como se fosse o seu rosto. Um rosto enevelhecido pelas agruras da vida e pelos nove partos que tivera. Levou-o à boca e comeu-o devagar, para absorver durante mais tempo os sabores da sua terra, da sua gente. Saiu do quarto e dirigiu-se à casa de banho, pelo menos era o nome que era dado àquele cubículo, e tomou um banho de água fria. A água parecia, hoje, mais fria, talvez porque estivesse sozinho na imensidão de um mar de gente, a que não estava habituado. Era impessoal estar ali. De regresso ao quarto olhou as paredes com uma atenção quase devota, contemplava cada esquina, cada pormenor, ansiava decorar-lhe o aspecto, afinal aquela seria a sua casa duarante algum tempo, quanto não sabia. Com a mala aberta pensou em vestir a melhor roupa, tarefa nada dificil para quem só tinha duas mudas. Vestiu-se, calçou os sapatos, desceu as íngremes escadas da pensão e partiu em busca da sua sorte. Calcorrou as ruas, os bairros, os pés doiam-lhe, olhava os sapatos e via que não iam aguentar a caminhada. A meio da caminhada estavam rotos, descalçou-os e caminhou assim... Sentia as pedras da calçada, frio não tinha, porque a vontade o movia. Cansado, meteu a mão no bolso, sentou-se na margem do rio, tirou um pedaço de chouriço que trouxera consigo e um naco de broa e ficou ali a comê-lo, enquanto estendia o olhar pela imensidão do rio. Entre a imensidão de um rio que lhe parecia ser o mar, abandonou-se à sorte de sonhar enquanto comia. Manolo, abraça o horizonte enquanto come e deixa-se levar pelo sonho, por ora....

Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

Caminhando com a mala de cartão...


Aos 11 anos de idade Manolo abandona a escola, decorria a década de 60 e ruma ao Porto em busca de trabalho. Vai com os sapatos meio gastos, mas eram os melhores que tinha, vestia a melhor vestimenta, as calças eram curtas, a roupa pouca, no entanto, levava as mãos cheias de esperança. Ia com medo, triste por abandonar os seus, desanimado por não ter podido ir além da quarta classe e ansioso por escrever em breve a dizer que tinha conseguido um emprego. Da janela a mãe seguiu-lhe os passos, o pai, homem doce, partiu com os animais para a pastorícia, não queria que o filho lhe visse as lágrimas e a dor que lhe apertava o peito, a dor de não lhe poder dar melhor sorte. Cabisbaixo, olhava o caminho a percorrer, os passos eram pesados. Olhava as mãos e dizia de si para si que ainda lhe iriam ser úteis. Abandonou a aldeia que o vira nascer, levava na pequena mala de cartão os seus haveres, que se resumiam a duas mudas de roupa, alguns trocos para os primeiros dias. No caminho pensava apenas em chegar ao destino, como faria para pedir emprego, como iria fazer chegar à sua família algum do dinheiro que receberia, pensava o que faria com o seu primeiro salário. Manolo Junior não receava a solidão, receava não vencer, não conseguir e ser apontado como fracassado. Depois de, quase um dia de viagem, chegou finalmente ao destino. Olhou ao redor e sentiu-se fora do seu habitat, sentiu não pertencer ali. Encheu o peito de ar, supirou profundamente e procurou a pensão mais em conta para pernoitar. Encontrada a pensão era hora de descansar. Amanhã o dia seria longo.... Fecha a mala e guarda os sonhos para si...

Domingo, Janeiro 11, 2009

Nas mãos sinto a luz

Quis a tela pintar-se assim. Encher-se de cores de significados para dizer mais alto que a vida só faz sentido porque há pessoas na nossa vida que nos conferem identidade. É nesta alteridade que me revejo hoje. Oferece-vos, por isso, este pensamento:

Nas mãos sinto a luz, a êxul luz
que vem das paliçadas da mansão,
a luz azul em clarificada zona então
aproxima de mim o seu facho de horizonte.

E logo eu a lembrar o querido monte
em que pousada estava sobracente a ramaria,
e logo eu então a pedir à maresia
que nos brilhos unos do futuro aproximasse

esse rumor de aves onde os raios enfeitasse
e eu oco no caminho que me guia
contivesse as minhas mágoas do passado,

e surgisse ali a minha alma em fogo-fátuo
estivesse eu em toda a dimensão do brusco
a nascer das folhas com a boca em luz arado.

Alexandre Vargas

Sábado, Janeiro 10, 2009

Amor incondicional.

Há datas, mas acima de tudo, momentos que não se pagam da memória, independentemente do tempo que passe, dos acontecimentos que ocorram. Quando paro para pensar, o que ocorre com frequência, invade-me um sentimento nostálgico de vivências imemoráveis. Dou-me conta que no próximo mês fará três anos que o nosso melhor amigo partiu, vítima de melanoma. Fechou os olhos para o eterno descanso, mas vivo nos nossos corações. Viveu a vida ensinando aqueles que consigo privavam e mesmo no fim dos seus dias mostrou-nos a luz que não conseguíamos ver. É surpreendente como mesmo no fim do seu trajecto conseguia fazer-nos rir e indicar-nos caminhos para além da tristeza. Encerrou em si, sempre, uma infinidade de transformações, que se revelaram essenciais para si mesmo e para os outros, por isso e por muito mais, que não consigo expor em palavras, desprendo-me para vos tentar mostrar o porquê de todos os anos o relembrar aqui. Exponho, por conseguinte, um episódio verdadeiramente marcante.
Um dia depois de ter sabido da terrível doença que o afectava e da impossibilidade de a vencer, chegou ao café à hora marcada, sentou-se e disse: “então Araújo vai uma bejeca ? e tu oh filósofa deixa-te de coisas porque hoje posso beber.” Na altura estava a dar aulas em Castelo Branco, aprendia a lidar com a diferença linguística da região e acabámos por nos envolver numa discussão que versava sobre a importância dos regionalismos. Lembro-me que o Brás e o Araújo acabaram por entrar numa discussão mais profunda, indo à literatura portuguesa. Falaram de Alves Redol, de Eça de Queirós, de Camilo Castelo Branco e de tantos outros. Quando dei por mim, estava na hora de ir. O Brás, achava que ainda era cedo e vociferou: “deixa de ser tão certinha e fica aqui com o amigo.” Disse-lhe não poder, porque no dia seguinte eu e o Araújo teríamos que nos levantar cedo para ir ajudar os meus pais a limpar um terreno junto ao rio da minha aldeia. Não esperava a reacção dele, que se expressou nestes moldes: “ai é? Então também vou. Sim, mais um a ajudar é sempre bom.”
- “Brás, és doido, com o problema que tens é melhor não.” – disse eu
- “Olha, olha…lá porque estou mais para lá do que para cá, tenho de continuar a viver. Vou e ponto final.”
No dia seguinte lá estávamos todos na levada a ajudar os meus pais, o sol apertava, pelo que o meu pai, conhecedor da situação do Brás lhe disse para ir para a sombra e se proteger, devidamente, do sol. A resposta que o Brás lhe deu marcou e continua presa na memória de todos quanto a ouvimos: “o sol que me podia fazer mal já fez, agora é esperar pela minha hora, mas tem de ser uma hora em que deixe uma lembrança boa”, dizia rindo.
Nunca esquecemos esse dia, a forma como ria, como dizia “porra esta coisa custa”; “xi, um copito ajuda”; “como pode esta gente viver da agricultura?”; “bolas vai lá vai que eu daqui a nada vou mas é ressonar”. Foi um dia em que rimos muito, dele e com ele, em que nos ensinou que as dores se amenizam se deitarmos para fora a ira. Mostrou-nos que a despedida com dignidade é importante, que importa que mesmo no adeus nos sintamos vivos porque somos amados.
Uns dias antes da partida escreveu estas palavras para o Araújo e para mim: “Não escolhemos o rumo da nossa vida, quanto vivemos ou podemos fazer, mas escolhemos os nossos amigos. Eu escolhi-vos a vós, para trilharem comigo os caminhos alegres e duros da minha vida. Amo-vos.”
Dizer amar não basta, temos de sentir o amor, mas acima de tudo partilhá-lo com os demais, por isso partilho aqui, mais uma vez, o amor incondicional e desprendido que nutri e nutro por ti Brás.

Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

Um cenário que já não se via há mais de duas décadas...







Hoje acordei com este cenário...

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Sobre politiquices...

Ontem, estendi-me no sofá para a ver os noticiários, estava com alguma curiosidade em ver a entrevista do nosso primeiro-ministro José Sócrates, não que ele me desperte algum tipo de curiosidade, tal é o tamanho do prevesível do seu discurso, mas porque se inicia 2009 estava algo desperta para o escutar. Confesso que há pessoas que detesto ouvir, desde Valter Lemos, Maria de Lurdes, Pedreira, Pinho, Sócrates, talvez porque o despotismo e a arrogância apareçam encobertos num raciocionio todo ele baseado em pressupostos falaciosos, fazendo da retórica uma arma de arremessso para a ignorância. De discursos ocos e vazios de ideias, embelezam-nos dando à mentira a aparência de uma realidade quimérica. Desta vez vi um homem inseguro, essencialmente virado para a propraganda política. Quem, numa altura, tão complicada continua a pedir uma maioria absoluta? Esta coisa das maiorias absolutas já se viu que não dão grande resultado e claro está que para um governo desta índole, pelo que temos verificado, uma maioria absoluta tende a levar ao "totalitarismo" encoberto sob o nobre nome de Democracia. Pois, claro está como as águas limpidas dos rios (poucos já) que o senhor primeiro ministro não conseguiria governar um país sem maioria absoluta, porque as suas vontades não poderiam ser satisfeitas com o mesmo à vontade, para além de que não poderia manter-se surdo às manifestações legitimas de milhares de cidadãos. Ontem vi um primeiro ministro arrogante, ainda mais do que habitual, que não conseguiu responder de forma clara e precisa a perguntas para as quais não se tinha preparado, como aquela em que o jornalista lhe pergunta porque não previu no orçamento de Setembro este cenário; ficou atrapalhado e sem argumentos no que diz respeito à educação. Só no final da entrevista, e nisso ele é medíocre, dada a forma repetitiva do seu discurso, se soltou recapitulando tudo o que já sabemos. Sem novidade no discurso, apenas a apagada imagem, levou a questionar-me onde anda a oposição? Inexistente, diria. Antes que questionem sou apartidária, voto naquele que me parece sempre oferecer maior segurança. Nas últimas eleições o meu voto foi um voto contra como lhe chamo, não votei neste governo, mas enraivece-me a pressão a que estamos sujeitos nos nosso postos... Mas uma outra questão se levantou na minha mente, temos a ideia de que os políticos têm de ser convicentes, este foi-o, mas não será preferível que sejam bons gestores? Entendo a política de outra forma, não é necessário ser-se só um bom orador, trabalhar a imagem, discursar em frente a um espelho para à frente dos media manter uma postura de "rei", entendo que um bom político é aquele que sabe governar um país, estando atento às suas necessidades e aos seus cidadãos. Um político, bom, não pode governar sozinho e continuar a tapar os ouvidos às vozes que se erguem contra determinadas soluções apresentadas. Já, sabemos Manuela Ferreira Leite anda apagada, quando fala diz coisas que não devia, mas não será ela um boa gestora? Francisco Louça, que ninguém lhe negue a inteligência, precisa de dar lugar a outra pessoa na liderança do BE, pois a imagem e discurso crítico estão demasiado gastos. Paulo Portas, desse até me esqueço que existe...

Segunda-feira, Janeiro 05, 2009

Aberta a janela

Encerrado mais um capítulo da minha vida, sinto-me aliviada pela frontalidade conseguida. Continuo com a mania da ética, mas esmero-me no tom cordial com que digo o que muitos não querem ouvir. Fazendo da Filosofia a minha máxima, empreguei-a para, finalmente, conseguir tirar um peso da alma. Foram necessárias muitas noites mal dormidas, muita crispação, muito desalento, muita raiva, para fazer ver que quem diz a verdade não merece punição. Mantive-me encerrada em mim durante estes dias, porque senti necessitar fazê-lo, castiguei-me, mas acima de tudo fui dura com quem me sentia mais à vontade. Hoje, depois de abrir a janela do meu quarto e ver um céu carregado de nuvens, despi o pijama e segui o meu rumo. Enfrentei o temor e deixei que a alma falasse, que as correntes se começassem a soltar. Disse o que há muito tinha dentro de mim, fi-lo porque precisava encerrar em definitivo mais um capítulo da minha vida. Inicia-se agora um outro capítulo, para o qual parto aliviada do peso que carregava, porque, mais uma vez, não me abandonei à mercê dos princípios que outros me queriam impor. Fui capaz de dizer a quem me quis ouvir "não queiram viver a minha vida, nem passar gestos vossos como sendo meus, simplesmente porque precisam de abandonar à mercê do lobo alguém que continua e continuará vida fora a viver a vida com os princípios que lhe foram incutidos e dos quais não abdica."
Porque eu sou aquilo que faço e não aquilo que teimam e teimaram querer que eu seja. Porque aquilo que somos só oferecemos a quem amamos e ainda assim há sempre uma réstia de nós que não damos a conhecer...

Terça-feira, Dezembro 30, 2008

Obrigada

Nos próximos dias estarei ausente. Não estarei propriamnete fora do país ou da localidade em que resido, mas estarei ausente para pensar. Preciso de umas doses de solidão para reflectir, acalmar, mas acima de tudo para procurar reencontar uma parte de mim que teima em desaparecer. Não consigo habituar-me ao grau de falsidade que impera por estes lados. Começo mesmo a acreditar que sou eu quem está errada. Mas se o estou estive-o sempre e talvez por isso se apresente fundamental um distanciamento de mim e de todos aqueles que fazem parte, de alguma maneira da minha vida. Preciso de tempo, de sossego e ausência de palavras que me indiquem caminhos, me mostrem trilhos, me apontem direcções. Sou, de facto, um bocadinho errante, para não dizer muito. Habituamo-nos depressa à errância, mas não nos habituamos tanto às nossas falhas. Confesso que ainda hoje, depois de já ter massacrado a cabeça com isso, não sei onde falhei ou se falhei. Mas isso é de somenos importância agora. Terei com certeza falhado, mas o que me dói mais é ter falhado não só por mim, mas por ter falhado por outras pessoas. Gostaria que findo este processo alguém tivesse tido a ombridade de me ter dado algumas palavras, que me tivesse dito alguma coisa, no entanto, desde que ajamos de acordo com a nossa consciência mal nenhum nos pode ser apontado. Saio desta viagem com a sensação de não ter sequer iniciado. Não me fere a saida, mas o gesto pouco ético e inestético de quem ousou dá-lo, esquecendo humanidade e frontalidade que tanto apregoam. Fere-me que se guiem por máximas de "mais e melhor" e na prática não sejam capazes de dar o exemplo. Que exemplo pode ser dado, quando nos escondemos atrás de uma qualquer carta ou e-mail e não temos a frontalidade suficiente para dizer o que se passou, qual o motivo que nos levou a? Não, nesta altura do campeonato, como já te disse, não quero saber o motivo, tão pouco o porquê, o que havia a ser dito foi dito no dia 23 deste mês, marcando indelevelmente o fim de ano, mas acima de tudo, destruindo a vontade de viver o Natal. Se considerarmos isto um gesto de sensatez e tentativa de melhoramento, então confesso-me profundamente confusa com os valores que imperam. Agradeço o convite para uma saida à noite, para um jantar, para um lanche, mas como já te disse, não posso ir, esgotaram-se as forças para continuar a fingir que está tudo bem, que sou uma "fortaleza" e não quero palmadas nas costas. Custa-me ainda saber que recusei ir para outros locais, e tive opção por dois, ainda há três semanas para agora me ver a braços com a sensibilidade deturpada. Sinto que foi em vão o esforço, que falhei como pessoa, como profissional neste últimos meses, coisa que nunca antes me tinha acontecido. E neste momento só quero esquecer, apagar a memória, encerrar um capítulo. Peço-vos, como tal, que deixem de me ludibriar, de tentarem criar em mim falsas expectativas, porque não pretendo continuar a adivinhar-me na incerteza do que desde há muito é certo. Quero terminar a guerra que não iniciei, sem ter de oferecer a bandeira da paz, porque estou convicta de que quem as inicia é que as deve oferecer, ainda que muitos possam apregoar que gestos que são seus, palavras que são suas, foram de outros. Não me interessa o que pensam ou poderão pensar ou virão a pensar, interessa-me encerrar de forma segura, sem mágoa ou dissabores este capítulo da minha vida. Talvez para isso tenha de me afastar deste local, repleto de paisagens naturais de rara beleza, mas se tiver de o fazer será o menos, para mim, sempre habituada a saltar de lugar para lugar. E nisto ninguém me pode apontar, porque nunca fiz da vida um mar de rosas, nunca cantei segurança, nunca tentei passar a perna a ninguém, nem menti para ser vista de outra forma, nunca me vitimizei e não será agora que o farei. Não será agora que penalizarei quem quer que seja, ainda que o pudesse fazer, mas não o faço porque não faz parte de mim. Não quero igualar-me ao nível dos que nunca tiveram senão vida fácil, aos que nunca tiveram senão que dizer estou aqui para que as portas se abrissem. Se um dia me vir além, será por mim, apenas pelo que sou capaz de realizar que lá estarei, não porque disse a alguém colocado no local certo: estou aqui. Na vida há dois tipos de pessoas as que o são e as que se perderam nesta construção. Não fui eu nunca que ousei dizer "palavras menos próprias, insultar pessoas, mandá-las para sitios menos próprios" em locais públicos. Mas ainda assim escutei-os, sem dizer palavras porque não queria ser igual. Enerva-me que mesmo depois disto não consiga senão sentir pena dela...sou assim... Nesta ausência que espero seja o mais breve possível, espero para a semana regressar aqui, quero fechar as cortinas do meu quarto ao mundo, e abri-las para outro mundo. E fico a desejar sair daqui para outro local.
A vós, e sabeis quem sois, o meu sincero obrigada e desculpem não ter tido capacidades para ir mais além.

Segunda-feira, Dezembro 29, 2008

Reencontro

Volveram já cinco anos...findos os quais voltei a reencontrar um dos amigos mais queridos e acérrimo defensor de causas que outros davam por perdidas. São as coisas boas que a internet tem. A persistência deu frutos, depois de muitos anos a procurar pelos amigos, finalmente encontrou-me. Perguntaram como se hoje há telemóveis? Pois, é verdade, mas os números alteram-se e cada um vai seguindo a sua vida. E hoje, estava eu a vasculhar a minha caixa de correio electrónico e dei-me com um nome pouco habitual na minha caixa. Ainda estive para apagar o e-mail antes de o abrir, receava que se tratasse de um vírus, mas não sei porquê, decidi abri-lo e ainda bem que o fiz. Li as palavras escritas e sentidas, porque quem escreve assim escreve com coração e fiquei ali, presa, a relembrar momentos que jamais poderão ser esquecidos porque foram vividos com uma intensidade tal que não podem apagar-se. Ainda por cima quando temos à nossa frente um dos causadores do meu enlace, não tivesse sido ele, um dos melhores amigos, ao longo do curso do "Sincero". O sorriso que o "pêras" tinha, saltou à lembrança, defazendo o rosto em lágrimas felizes, porque voltei a viver a esperança que nunca me abandonava, a despertar sonhos que aclamava como um facho a arder. Pude verificar que, de facto, o tempo passa, os contactos perdem-se mas os amigos nunca se esquecem. Fiquei ainda mais certa de que o que vivemos, o que fizemos uns pelos outros, o que edificamos em conjunto, as partidas, as lágrimas e os sorrisos não se esqueceram nunca. E tudo isto porque veio visitar este blogue sem querer e conseguiu adivinhar-me neles. Não tivesse eu falado da minha terra :)
Mais curta a distância é hora de aproveitar este reencontro. BOM 2009, que este fim de ano de 2008 proporcionou-me, felizmente, uma luz :)