quinta-feira, janeiro 22, 2009

Oa tamancos de Manolo...


Desperta do sonho, queda-se o olhar sobre o rio, divaga a mente por inúmeros locais desconhecidos para si. Sabe onde está, o corpo prende-o ao local, mas a mente solta-se para se encontrar num local que desconhece. Manolo, começa a contactar, pela primeira vez, com uma infinidade de novas sensações, com sentimentos e emoções até então fechadas para si. Depois desta paragem, com os pés descalços faz-se ao caminho, novamente. Bate à porta de todos os pequenos comércios por que passa, tem os olhos lassos, os ombros caidos como se carregasse o peso do mundo. Já bateu a muitos locais, falou com muita gente, disse precisar de trabalhar, mas as recusas foram constantes. Já no final da rua do bairro, Manolo bate a outra porta, a última, ainda aberta. Do lado de lá do balcão em madeira gasta, surgiu um senhor alto, forte. O corpo franzino estremeceu ao ver tão proeminente figura. A medo disse: "senhor venho aqui perguntar-lhe se precisa de algum empregado. Faço tudo."

- De onde vens tu rapaz? - perguntou o dono da pequena mercearia

- De longe senhor, de uma terra que o senhor não conhece. Venho de lá, dos lados de Trás-os-Montes.

- E que te levou a vir até aqui?

- A busca de melhor sorte senhor. Preciso de ajudar os meus, e lá de onde eu venho já não há lugar para mim. Se continuar lá vou fazer o mesmo caminho que os meus pais e não estarei a ajudá-los. Só posso ajudá-los se conseguir madar-lhe mais algum...

- Como te chamas?

- Manolo.

- Manolo, o meu nome é Pereira. Diz-me onde estás a morar e logo verei se tenho alguma coisa para ti.

- Moro ali à frente senhor, na pensão ao fundo da rua.

- Vai descansar rapaz, deves ter os pés em ferida. Espera aqui um pouco que já volto.

O senhor Pereira subiu as escadas que davam acesso à casa, que ficava por cima da loja, e desceu com uns tamancos de madeira.

Manolo ficou sem palavras, os olhos toldaram-se de lágrimas, só foi capaz de dizer: "Obrigado senhor, muito obrigado. Mas não tenho dinheiro para lhos pagar."

- Não te preocupes meu rapaz, vai-te lá embora que se eu tiver novidades para ti lá te chamo.

Manolo seguiu para a pensão com os tamancos calçados, invadia-o um sentimento de gratidão enorme pelo gesto daquele desconhecido. Não sabia ainda que o senhor Pereira também já tinha tido 11 anos, já tinha andado descalço e conhecia como ninguém a necessidade. Chegado à pensão, caiu na cama e fixou o olhar no tecto, desenhou mentalmente um cenário e deixou-se enlevar nele. Olhou as mãos mais uma vez e adormeceu na ânsia de acordar com o sr. Pereira a bater-lhe à porta de manhã. Manolo dorme desperto...

4 Comments:

At 22 janeiro, 2009 18:11, Blogger Ermelinda Silva said...

Tenho a certeza que a esta hora, os miúdos do tempo do Manolo, vão seguir com a máxima atenção estas pisadas seguras, calçadas, atamancadas, mas dignas.
O sol começou a brilhar...

 
At 22 janeiro, 2009 21:19, Blogger Clara B said...

lindo. Já não há histórias assim.
Já agora, gostava que aceitasses o desafio que proponho no meu cantinho! Espero que aceites! Um beijo grande!

 
At 23 janeiro, 2009 23:51, Blogger Lu.a said...

:)
Tá linda, a história! Linda!

 
At 28 janeiro, 2009 13:17, Blogger alexia said...

Bem...eu tb concordo que toda a historia esta muito bem escrita.
Não sei porque...ou até sei:), mas o teu Manolo poderia ser o Blahnik, é o meu lado futil a contabalançar toda a profundidae da tua historia:)
Fica bem!

 

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